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SERÁ ESTE O MUNDO QUE CRIAMOS?

(Is This The World We Created?)

 

 

“Olha só estas bocas esfomeadas que temos

que alimentar

Olha bem toda a gente sofrendo que nós criamos

Tantas caras solitárias espalhadas por todo lado

À procura do que precisam

 

Será este o mundo que criamos?

Para quê o fizemos?

Será este o mundo que invadimos

Em contra da lei

Em fim parece assim

Será que hoje vivemos para isso

all living for today

O mundo que criamos

 

Sabem que cada dia nasce uma criança desamparada

Que precisa de amor e de cuidado numa casa feliz

Numa parte um homem rico está sentado no trono

Olhando a vida passar ao lado dele

 

Sera este o mundo que criamos

Nós proprios fizemos isso

Será este o mundo que devastamos

Até os ossos

Se houver um Deus no céu olhando para baixo

O que é que poderia pensar do que fizemos

Do mundo que ele tinha criado”

Just look at all those hungry mouths we have to feed

Take a look at all those suffering we breed

So many lonely faces scattered all around

Searching for what they need

 

Is this the world we created

What did we do it for

Is this the world we invaded

Against the law

So it seems in the end

Is this what we’re all living for today

The world that we created

 

You know that every day a helpless child is born

Who needs some loving care inside a happy home

Somewhere a wealthy man is sitting on his trone

Waiting for life to go by

 

Is this the world we created

We made it on our own

Is this the world we devastated

Right to the bone

If there’s a God in the sky looking down

 What can He think of what we’ve done

To the world that He created

 

  Voz: Freddie Mercury

Letra: Freddie Mercury, Brian May

 

 

PORQUE AYRTON?

   

                                        “Vai chegar a minha hora, mas da mesma forma

                                      como com o Ferrari, Deus sabe quando.” *

  Ayrton Senna

 

   

Ao ler várias obras sobre o Ayrton Senna, encontrei a conjectura de que ele influia de uma forma estranha sobre todo às mulheres de “todas as idades, culturas e nacionalidades”. Assim escreve Cristopher Hilton quem recebia montes das cartas, todas das mulheres, depois de publicar o primeiro livro dele sobre o Ayrton (publicado quando este ainda estava vivo).

Não concordo com esta opinião. Os valores que o Ayrton defendia pertencem aos essenciais para a vida e muitas pessoas compreenderam isso inconscientemente, e por isso é que foi tão admirado, no espaço tão grande: os novos e os velhos gostavam dele, os homens, as mulheres e as crianças, todos da mesma intensidade. E enquanto às mulheres, elas apenas tinham a vantagem em relação aos homens porque tinham mais capacidade pare exprimir em voz alta os verdadeiros sentimentos delas. Para os homens, fora do mundo limitado do desporto, não há muitas maneiras para mostrarem o que sentem em verdade. As mulheres podem fazer isso, elas consideram-se inferiores de todas formas nesta civilização, a base da qual é tão só o princípio masculino, que não avalia muito o “sentimentalismo”. Por causa dessa desigualdade no princípio, está perturbado o equilíbrio e todo este mundo se inclina com perigo, e todos somos testemunhas disto. O Ayrton também estava consciente disso, ele que tinha uma estrucura equilibrada da alma e a quem o coração doia tanto ao olhar a cara devastada deste mundo. As desigualdades nos todos os aspectos perturbavam a paz espiritual, e uma das maiores desigualdades é com certeza a pobreza incrível da maior parte do Brasil (e do mundo, aliás).

 

 

“Isso não pode continuar assim” – viu-se obrigado a dizer ainda soubesse que sozinho não podia fazer nada. “Os ricos já não podem continuar vivendo numa ilha, cercados do mar da pobreza. Todos nós respiramos o mesmo ar. As pessoas precisam ter oportunidades, pelo menos as básicas. Oportunidades da educação, alimentação, atenção médica. Se isso não começar a acontecer, então não há muita esperança no futuro e não estranha que os problemas fossem maiores e que a violência acrescentasse.  

 

Disse mais isso: “Tudo o que eu vejo é que as condições da vida para uma maioria imensa do povo brasileiro ficam piores e que é practicamente impossível fazer uma coisa em contra desta tendência. Isso me dá muita pena e me preocupa imenso.”

 

    Mas ele teimava lutando em contra dessa tendência e por isso o aspecto espiritual da obra do Ayrton não é o único porque ele participava neste mundo de uma forma muito concreta, material. Que pensam, que fazia quando acabava o dura época do verão em Europa? Voltava a casa, ao Brasil onde estava o verão de novo. O Ayrton era um homem que não tinha tempo para os invernos, porque tinha que fazer tantas coisas antes de partir. Só após a morte dele soube-se com mais divulgação de que se dedicava ao trabalho humanitário. Ele próprio mantinha em segredo essas actividades dele, do medo de não ser compreendido mal. Ele queria manter sã a essência dele, isso foi o objectivo dele. De mesma forma compreendia que era preciso mudar as coisas na raiz, educar os jovens e dar-lhes pelo menos uma oportunidade mínima, porque sem isso não havia resultados que durem. Não sabemos tudo o que o Ayrton tivesse feito nessa direcção, em geral não se sabe muito sobre isso, e ele próprio apenas nos disse disso: 

 

“Quando vocês virem as crianças na rua que apenas conseguem sobreviver, compreendem que têem que fazer alguma coisa, mas que nunca seriam capazes de mudar o mundo inteiro sozinhos. Mas podem contribuir uma coisa para que uma parte mude. O que eu faço contra a pobreza não vou dizer nunca. Fórmula 1 não é nada em comparação com esta tragédia.”

 

Agora, depois da morte dele algumas coisas são conhecidas. Ainda vivo, conseguiu levar ao cabo um projecto que realmente pode ser designado como a realização de um sonho. Ele fez publicar uma revista de quadrinhos para os jovens “SENNINHA”. Essa revista é uma herança visível do Senna, como se fosse uma extensão física da vida dele.

                Porque escolheu precisamente a banda desenhada como o meio da expressão? Porque ele podia escolher entre os mais modernos meios de comunicação, e ele escolheu precisamente os quadrinhos, que parece um pouco antiquado nesta época moderna. Mas o Ayrton sabia que a revista que a gente podia segurar nas mãos era como se fosse o melhor amigo, com ela a gente não está sozinha. Pode-se ler numa parte qualquer, está sempre com a gente ao alcance da mão, pode-se guardar e ler de novo depois de certo tempo – é leal e duradoura. Mas o que é muito mais importante é que a gente na imaginação dá vida às personagens, vivendo com elas, e não é como na TV onde se empurram as imagens acabadas nas cabeças da gente. A TV é um meio muito perigoso em verdade, sobretudo nas mãos das pessoas sem consciência. Aqui vem também um facto muito importante de uma revista de quadrinhos ser accesível a todos, podem-na ler mesmo aqueles que nem sequer têem TV, nem o vídeo, nem a antena parabólica, nem o Internet. Ayrton pensava sobretudo neles e por isso é que decidiu a favor dos quadrinhos, sabendo que os lêem os jovens, e ele queria-lhes dar um exemplo de algo positivo, porque se não tiverem uma educação correcta, depois será tarde demais. Continuava a dizer sempre que a educação era importantíssima, e através da banda desenhada tentou ajudar neste sentido. Podia educar de forma positiva apenas com o nome dele, que era conhecido a todos, e também foram conhecidos os valores por detrás desse nome.

 

 

“Por meio de Senninha queria comunicar certos valores que são importantes para mim: a ética, a amizade, a vida sã, a consciência do ambiente, e também as coisas simples como o bom comportamento no trânsito” – foi assim que o Senna descreveu o que queria conseguir publicando a revista. A personagem do Senninha foi imaginado como progressista porque “Senninha adora a tecnologia moderna, mas apesar disso gosta de preservar o moral e os valores emocionais que se esquecem cada vez mais na nossa sociedade” – realçou o Senna.

 

De acordo com esses valores, Ayrton construiu ao longo da vida, uma personalidade humana e desportiva tão forte e da qualidade, e ganhou tanta popularidade que a venda da figura e do nome dele trouxe muito dinheiro, e logo esse dinheiro foi dirigido aos fins humanitários. Uma coisa deu a outra. E continua a existir.

                Desde a fundação em 1995, a Fundação Ayrton Senna desenvolveu e apoiou os programas que ajudam mais de 40 000 crianças e adolescentes que sem isso estariam em perigo social e/ou pessoal (os datos tomados do folheto oficial da Fundação Ayrton Senna, a Presidente da qual é a Sra. Viviane a irmã do Ayrton,).

 

Ao olharmos todas estas obras do Ayrton Senna não podemos senão ficar assombrados perante a excepcionalidade desse homem que tinha a alma intranquila como todos aqueles que não gostam da cara deste mundo. Uma lenda judia diz que em cada geração há 36 homens justos, a existência de quem é uma garantia para a sobrevivência do gênero humano. Não lhes parece inevitável a conclusão de que o Ayrton Senna possa ser um deles? Ou se lermos o Daniel Quinn, temos que ver logo que o Ayrton pertencia a “Os que deixam” e não a “Os que tiram”.**

Olhando desse ponto vamos compreender porque teve de morrer tão jovem e solitário. Porque se houvesse pelo menos 2 pessoas como ele e se juntassem as forças, seriam capazes de mudar a cara deste planeta de forma notável. Disso nos falou o Jesus: “Se dois de vocês se juntarem na terra, qualquer coisa que pedirem, o meu pai, que está no céu, dar-vos-á. Ali, aliás, onde duas ou três pessoas se juntarem no meu nome, eu também estou com eles.”

Por isso o “verdadeiro príncipe deste mundo”*** cuida muito bem que não aconteça nada deste jeito, e com demasiada frequência o destino dos homens verdadeiramente excepcionais é de se irem embora muito novos, e se for possível de forma mais terrível – se calhar para assustarem logo àqueles que lhes pudessem seguir naquele caminho duro.

 

 

    Eu não conheço os caminhos do destino, nem posso predizer o futuro, mas sei uma coisa com certeza: nada pode tirar o Ayrton Senna das almas das pessoas que guardam a figura e as obras dele “do lado esquerdo do peito"****. Eles são a garantia de que a obra dele ainda dura, e que durará no futuro.

   

 

* Com estas palavras o Ayrton brincou na entrevista que deu para a Radiotelevisão Croata 3 dias antes de morrer.  

** Daniel Quinn, “Ishmael” – A Aventura do Corpo e do Espírito. Dividindo os homens a “os que deixam e os que tiram”, D. Quinn descreve de uma maneira genial a diferença elementar entre as pessoas.

*** “O diabo é o verdadeiro príncipe deste mundo” – disse uma vez o Ayrton.

**** O poema preferido do Ayrton:

 

O AMIGO É COISA PARA SE GUARDAR

DO LADO ESQUERDO DO PEITO

  Milton Nascimento