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EU QUERO TUDO

(I Want It All)

 

 

“Eu sou um homem com o caminho marcado

Tantas coisas para fazer numa só vida

Minha gente, estão a ouvir?

Não quero um meio-termo

E onde é e porque é e mentiras vivas

Assim que vivo tudo isso

Sim, vivo tudo isso

E dou tudo, e dou tudo

Não pido muito, se quiserem a verdade

É para o futuro, ouça o grito dos jovens

Eu quero tudo, eu quero tudo, eu quero tudo

E quero-o já

Eu quero tudo, eu quero tudo, eu quero tudo

E quero-o já” 


I’m a man with a one track mind  

So much to do in one life time

(people do you hear me)

Not a man for compromise

And where’s and why’s and living lies

So I’m living it all

Yes I’m living it all

And I’m giving it all, and I’m giving it all

 

It ain’t much I’m asking, if you want the truth

Here’s to the future, hear the cry of youth

I want it all, I want it all, I want it all and I want it now  

 

Voz: Queen

Letra: Queen

 

 

1984 - MONTE CARLO SOB A CHUVA

   

                Ao dar o passo para a F-1, Senna escolheu a equipa Toleman, mais fraca, ainda que tivesse várias ofertas das equipas melhores. Assinou o contrato até o ano 1986. A gente podia perguntar: mas porque uma equipa que perde se só queria as victórias? Mas Senna sabia que cada equipa que ganhava já tinha o seu favorito No. 1 a quem prestava mais atenção e que ali só podia ficar à sombra deles, o que não queria. Queria ser livre e independente quanto mais podia, para poder aprender à vontade e tentar aplicar o que aprendeu sem limitações, porque na opinião dele aquela foi a única forma para avançar como devia ser. Explicou-o mais tarde com estas palavras:

 

A minha única motivação na F-1 é ter êxito. Se só tivesse conduzido com todos os outros, não podia justificar o meu emprego de condutor perante de mim.

 

Quer dizer, não queria só proteger as costas a ninguém, queria conduzir para a própria conta dele, ainda que fosse num carro inconcorrente. E foi nesse carro inconcorrente, com a assistência da chuva, que ele conduziu a famosa corrida em Monte Carlo. Aquilo foi a apresentação do potencial que se mostraria com todo o esplendor no futuro. Já naquela altura ele deu muito que fazer a um dos principais, ao Alain Prost. Graças ao Ayrton e à chuva, o Prost ganhou só 4,5 pontos naquela corrida, e no fim do ano faltou-lhe a metade do ponto para o título. Acredito que a partir daquela época a chuva e o brasileiro voltaram a ser sinónimos para o Prost.

 

                

    Esse ano, o Senna trouxe 13 pontos à equipa Toleman que estava quase quebrada e despediu-se deles. Claro que isso não passou sem problemas e sem levantar muito pó, porque ainda estava ligado pelo contrato. O dinheiro ajudou no assunto – o Senna resgatou-se simplesmente. Cresceu mais do que Toleman mais rápido do que ele próprio o esperava e era tempo de seguir andando, sempre em frente. Essa aspiração do Ayrton, de sempre ir em frente, não foi bem compreendida. Os outros descreviam-na com toda uma série de palavras; para eles isso foi a arrogância, a intolerância, a obsessão com um pensamento só, a incapacidade de ver as coisas desde o ponto da vista dos outros etc. Como ilustração podia servir um episódio daquele tempo, de que se escreveu e falou. Aliás, que o Ayrton foi o único que não arranjou tempo para ir visitar o seu ferido colega da equipa, Johnny Cecott, e põe-se como razão que abrir o caminho do êxito foi mais imprtante para ele que os sentimentos humanos.

                Mas isso foi mesmo assim? O próprio Ayrton, uns anos mais tarde, disse sobre isso (quando lhe fizeram lembrar que o Johnny ainda não lhe tivesse perdoado).

 

Sim, desde o ponto de vista dele, eu posso compreender… Aquilo foi um erro da minha parte. Depois do acidente estive muito preocupado, mas suponho que simplesmente não tenha pensado que o facto de eu ter ido a visitá-lo teria significado tanto para o Johnny… Desculpem, mas a gente não sempre faz as coisas como deve ser.”

 

                

Naquela altura isso não tinha muita importância, mas mais tarde quando o rapaz da Toleman se virou o SENNA, isso voltou a ser importantíssimo. Porque é que o Ayrton não foi visitar o colega? Tenham a certeza que se informou bem sobre o estado dele, e que se encarregou ele próprio de todas as obrigações relativas às corridas. E uma visita meramente formal (pela qual se julgam as pessoas de forma errada) não se dava com o Ayrton. Ele não precisava das formalidades, fingimentos e enfeites, a simplicidade era o caminho dele (o caminho de todas as pessoas verdadeiramente grandes). E quando realmente foi preciso ajudar, mesmo se não pudesse, ele ajudava sempre.

 

                Uma vez o Mark Blundell tentou fazer um trabalho sobre o “segundo rosto” do Ayrton, como ele o tinha chamado. O Mark percebeu que o Ayrton o deixou para arranjar sozinho o transporte para o aeroporto (quando não permitiu que Joseph Leberer, o fisioterapeuta dele o levasse) só para se vingar porque o Mark foi mais rápido nos treinos. É ridículo imaginar uma coisa dessas. Se no caso do Mark não houvesse outra solução, e se ele precisasse mesmo da ajuda, o Ayrton ter-se-ia sentado no carro, e tê-lo-ia levado ele próprio para o aeroporto. O Ayrton ajudava sempre, caso as pessoas nao tenham podido resolver um problema, porque ele também nunca teria pedido nada aos outros enquanto podia fazê-lo ele próprio. Esperava dos outros o mesmo comportamento. Se o Mark tivesse esperado uma atenção especial, ter-se-ia enganado de novo. O facto de efectuar o trabalho o melhor possível era uma coisa normal para o Ayrton. Para ele não havia outra maneira, pois também não havia uma gratidão especial. Foi essa a razão pela qual o Mark tinha recebido a mensagem de arranjar sozinho o transporte para casa, e não por uma vingança mesquinha do Senna, como ele tinha pensado.

 

   

1985-1987  -  ESTORIL SOB A CHUVA

   

                Nos três anos seguintes o Senna conduzia para Lotus e conseguiu a victória 6 vezes. Essas foram as últimas victórias para Lotus. Uma delas foi a primeira victória seniana na F-1, e faz-se lembrar ainda hoje pelas muitas vezes mencionadas “super-humanas” capacidades dele no conduzir quando chovia (Senna gostava muito dessa corrida, além de ser a primeira victória dele, foi onde ganhou o primeiro pole dele). Foi a corrida no Estoril, celebrada no dia 21 de Abril de 1985, e esse dia foi muito molhado. Escreve-se da chuva como de um aliado do Senna, porque a maioria dos motoristas preferem o asfalto seco, e ele é muito melhor nas condições com chuva do que os concorrentes. Porque?

 

Senna's first victory - Estoril 1985

 

Uma razão disso é que treinava muito nessas condições. Ainda muito novo, percebeu que conduzir na pista molhada exige uma concentração e arte especiais, e pôs-se a estudar esta arte. A pista molhada representava um desafio, sendo uma circunstância agravante para os motoristas e ele gostava dos desafios. A outra razão foi que a água era o elemento dele. Ele sentia-se bem quando chovia, conseguia um novo impulso para trabalhar, a chuva dava prazer aos nervos dele. Pensando em tudo isto, começamos a compreender a força do “RAIN MAN”,  e porque é que podia conduzir as corridas à chuva com mais segurança do que os outros.

 

                Aliás, naquela altura toda a personalidade do Senna estava virada para as corridas. A F-1 voltou a ser o mundo dele ao qual se consagrava por completo; ele disse sobre isso: “Correr é tudo para mim, é o desafio da minha vida, é a profissão e o emprego, o passatempo e às vezes o virus que não tem medicina. Perdi o interesse para todas as outras coisas. A minha alma e o meu corpo pertencem ao correr.”

 

Sendo o titúlo do campeão mundial o sonho de todos os motoristas, Ayrton desejava conseguir este objectivo com ardor.

 

“Espero tanto de ser um dia o campeão mundial, conseguir o título é a única razão para conduzir as corridas” – pregoou.

 

Monte Carlo 1987

                

    Aqueles foram os anos da aprendizagem dele, tanto como profissional e como pessoa. Ainda devia aprender muitas coisas. Incansávelmente avaliava os rivais dele, perguntava-se sem parar porque faziam isto ou aquilo, e quando conseguia “entrar” nas cabeças deles, esforçava-se para fazer tudo mais rápido, melhor. Não se pode afirmar mesmo que estavam entusiasmados com ele, porque ele achava que tinha o direito de pegar tudo o que podia, e o que merecia pelos esforços dele. Claro que alguém ia perder. Seria aquele que investiu apenas uma pequena parte do conhecimento. Por isso é que o Ayrton aproveitava até a mais mínima oportunidade que trazia as melhoras, embora fossem microscópicas.

Ao mesmo tempo estava a trabalhar em si próprio. Devia aprender a actitude que era preciso tomar perante os meios de comunicação e o público porque a aparência e o modo de falar dele, naturais, impulsivos e simplesmente sinceiros, não eram o que este mundo apreciava nem aceitava com benevolência. Estava muito zangado por isso.

 

Eu conheço-me”, dizia, “sou muito directo em geral. É porque sou assim que certas pessoas acham que sou presumido e arrogante. Às vezes isso me incomoda um pouco, porque tenho a certeza de que não sou.”

 

E quase todos pensavam assim. Os ingleses da F-1 faziam a guerra colectiva contra ele. Atacavam-no com palavras, até com as mãos. Para o Mansell e os outros, o Senna era o lenço vermelho… E ele seguia a se aperfeiçoar,  a se aperfeiçoar apesar de tudo… Dizia: “Queria-me puxar até os limites em tudo que faço.”

  

Imola 1987

                

    Aquilo foi a particularidade que não pôde ficar desapercebida. Criaram o nome “MAGIC” para ele, ainda que nenhum nome pudesse ficar ligado à ele de forma contínua. O nome Ayrton Senna tinha mais magia do que qualquer outro, mas se calhar podiamos realçar um: “O Grande Brasileiro”. Este seria o melhor. Ducarouge, o chefe dos técnicos de Lotus, disse uma vez do Senna: “Ainda não tenho encontrado um motorista que fosse capaz de me fazer tais declarações sobre o carro dele. Ele tem os sentidos em todas partes. Trabalhar com ele é o sonho de cada engenheiro.” Apesar disso não lhe puderam dar a única ciosa que lhe faltava para ser campeão em 1987 – um carro adequado. Ele era grande, mas o carro de Lotus já não, por isso era iminente que no ano seguinte passase à nova equipa.